6ª prova da existência de Deus – o argumento ontológico

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Santo Anselmo

No Século XI, Santo Anselmo de Cantuária criou um argumento interessante para demonstrar a existência de Deus em seu Proslogium. O argumento do Doutor Magnífico ficou muito conhecido. Basicamente diz que Deus é o Ser do qual não se pode pensar o maior. Ora, o Ser do qual não se pode pensar um maior deve existir tanto na realidade como na mente, pois se não existisse na realidade, não seria o maior.

O argumento é racional, é lógico, porém não convincente. Um monge chamado Gaunilo respondeu ao argumento percebendo a falha, mas a sua resposta foi pior. Gaunilo respondeu que poderíamos imaginar uma ilha perfeita, mas isso não significaria que ela exista. Todavia, Santo Anselmo respondeu de bate-pronto: uma ilha não é um ser necessário, é um ser com limitações, diferente de Deus. A resposta fatal viria de Santo Tomás de Aquino, que refutou o argumento com certa facilidade num parágrafo:

«Talvez quem ouve o nome de Deus não o intelige como significando o ser, maior que o qual nada possa ser pensado; pois, alguns acreditam ser Deus corpo. Porém, mesmo concedido que alguém intelija o nome de Deus com tal significação, a saber, maior do que o qual nada pode ser pensado, nem por isso daí se conclui que intelija a existência real do que significa tal nome, senão só na apreensão do intelecto. Nem se poderia afirmar que existe realmente, a menos que se não concedesse existir realmente algum ser tal que não se possa conceber outro maior, o que não é concedido pelos que negam a existência de Deus» (S.Th. I, q. 2, a. 1).

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Alvin Plantinga

Em suma, não se pode demonstrar a existência de Deus partindo da sua definição, uma vez que Deus é indefinível. O deslize do Santo Anselmo na elaboração do argumento é justamente fugir do conhecimento de Deus pelo que está na Sagrada Escritura, que é observando as criaturas visíveis. Ora, as cinco vias do Santo Tomás se baseiam nisso. É um salto lógico. Por isso tanto o argumento do Santo Anselmo quanto do Alvin Plantinga pecam nisso, ainda que do filósofo protestante seja mais complexa se baseando na existência de mundos possíveis. Deus não é um ser que cabe na nossa cabeça. O argumento de Alvin Plantinga tem seis premissas.

  1. É possível que um ser de excelência máxima exista.
  2. Se é possível que um ser de excelência máxima exista, então um ser de excelência máxima existe em alguns mundos possíveis.
  3. Se um ser de excelência máxima existe em alguns mundos possíveis, então ele existe em todos os mundos possíveis.
  4. Se um ser de excelência máxima existe em todos os mundos possíveis, então ele existe no mundo real.
  5. Se um ser de excelência máxima existe no mundo real, então um ser de excelência máxima existe.
  6. Portanto, um ser de excelência máxima existe.

Acredito que o problema do argumento de Plantinga é provavelmente esse: colocar Deus numa condição meio limitada. Dizer que “um ser excelência máxima existe num mundo possível” é dizer que o mundo possível é maior que o ser. Todavia, a lógica é interessante uma vez que as premissas aparentemente procedem validamente. Nesse caso, o objetor deverá quebrar a primeira premissa para invalidar.

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5ª prova da existência de Deus – o argumento da ordenação ou causa final

IMG_5456A quinta via é, na minha opinião, o mais forte de todos os argumentos. Ao contrário do que os objetores modernos – como o já deveras citado Richard Dawkins – pensam, a quinta via não é o Argumento do Desing Inteligente ou tampouco o Argumento do Ajuste Fino. Ainda que eles possam ser ligados de certa forma, eles não são em si a quinta via do Santo Tomás de Aquino.

O Argumento do Design Inteligente, que podemos também chamar de Argumento da Complexidade Irredutível mostra mais de sistemas fisiológicos presentes em certos seres que são complexos demais para surgir por mero acaso. Michael Behe no seu A Caixa Preta de Darwin mostrou diversos exemplos como o flagelo bacteriano, um sistema de rotor com eixo muito semelhante a um motor construído pela mão humana. O Argumento do Ajuste Fino pouco sei sobre quem o elaborou, mais sei que o apologeta protestante William Lane Craig o popularizou juntamente com o Argumento Cosmológico Kalam. Craig no seu livro Em Guarda, mostra de forma razoavelmente didática como é mostrando cálculos de probalidade absurdos mostrando como o universo está extremamente equilibrado de uma forma que um desvio quase infinitesimal pode colapsá-lo de uma forma que tornaria a existência da vida impossível.

No que consiste então a quinta via do S. Tomás de Aquino? O argumento é de origem aristotélica como a primeira e a segunda vias e podemos considerar um complemento da segunda via. Enquanto a segunda via é sobre a primeira causa eficiente, a quinta via é mais ousada focando na causalidade final. Leiamos o que escreve Tomás sobre a quinta via:

«A quinta procede do governo das coisas — Pois, vemos que algumas, como os corpos naturais, que carecem de conhecimento, operam em vista de um fim; o que se conclui de operarem sempre ou freqüentemente do mesmo modo, para conseguirem o que é ótimo; donde resulta que chegam ao fim, não pelo acaso, mas pela intenção. Mas, os seres sem conhecimento não tendem ao fim sem serem dirigidos por um ente conhecedor e inteligente, como a seta, pelo arqueiro. Logo, há um ser inteligente, pelo qual todas as coisas naturais se ordenam ao fim, e a que chamamos Deus» (S.Th. I, q. 2, a.3).

O argumento é simplesmente irrefutável. Vamos nos aprofundar um pouco na questão. S. Tomás disse que todos os seres atuam em direção a um fim, i.e., cumprem um papel e estão ordenados a isso. Concluamos que a matéria não pode por si mesma ser ordenada já que ela por si mesma não possui inteligência. Vejamos um exemplo de uma pedra. A pedra não tem inteligência e portanto não pode ordenar nada. Muito menos a si mesma. Porém, a matéria que a compõem está ordenada e a maior prova disso é que o nosso intelecto compreende o que é uma pedra ao reconhecermos com o auxílio da visão ou o tato. Sem a ordem na matéria só existiria o caos e o nosso intelecto não distinguiria absolutamente nada. Ora, se existe ordem na matéria e a matéria não se ordena por si própria dada a ausência de inteligência, deve existir um ordenador inteligência que a transcenda.

Uma prova de como o nosso intelecto precisa de que haja ordem em algo para identificar, basta fazer a seguinte observação: quando vemos um quadro do Pollock, por exemplo, o nosso intelecto distingue que é uma tela pintada com tinta, mas não distingue o que a pintura quer dizer porque a tinta na tela não tem nenhuma ordem, mas se observarmos um quadro belo como um do Johannes Vermeer, sabemos que é um quadro com significado porque existe ordem na pintura. Ela possui significado. O mesmo se aplica à matéria. Se não existisse ordem que faça o nosso intelecto distinguir os seres, não haveria o que distinguir. Nem mesmo uma simples pedra.

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4ª prova da existência de Deus: o argumento dos graus de perfeição

IMG_4189A quarta via do S. Tomás é a mais abstrata e consequentemente a que menos convence. Todavia, o fato de não convencer como as outras vias não significa que seja inválida. Na verdade é uma das vias mais bonitas dado o seu simbolismo e muito interessante. Vejamos o que o Doutor Angélico escreveu a respeito:

«A quarta via procede dos graus que se encontram nas coisas. — Assim, nelas se encontram em proporção maior e menor o bem, a verdade, a nobreza e outros atributos semelhantes. Ora, o mais e o menos se dizem de diversos atributos enquanto se aproximam de um máximo, diversamente; assim, o mais cálido é o que mais se aproxima do maximamente cálido. Há, portanto, algo verdadeiríssimo, ótimo e nobilíssimo e, por conseqüente, maximamente ser; pois, as coisas maximamente verdadeiras são maximamente seres, como diz o Filósofo. Ora, o que é maximamente tal, em um gênero, é causa de tudo o que esse gênero compreende; assim o fogo, maximamente cálido, é causa de todos os cálidos, como no mesmo lugar se diz. Logo, há um ser, causa do ser, e da bondade, e de qualquer perfeição em tudo quanto existe, e chama-se Deus».

Vejamos uma resposta do humilde Richard Dawkins a esse argumento:

«Isso é um argumento? Também seria possível dizer: as pessoas variam quanto ao fedor, mas só podemos fazer a comparação pela referência a um máximo perfeito de fedor concebível. Tem de haver, portanto, um fedorento inigualável, e a ele chamamos Deus. Ou substitua qualquer dimensão de comparação que quiser, derivando uma conclusão igualmente idiota» (Deus, um delírio; c. 3).

Bem, no livro do Dawkins o suposto argumento do Tomás está diluído propositalmente para que se pareça fraco. No livro do Dawkins lemos:

Percebemos que as coisas do mundo diferem entre si. Há graus de, digamos, bondade ou perfeição. Mas só julgamos esses graus se em comparação a um máximo. Os seres humanos podem ser tanto bons quanto ruins, portanto o máximo da bondade não pode estar em nós. Tem de haver, portanto, algum outro máximo para estabelecer o padrão da perfeição, e a esse máximo chamamos Deus.

Na versão adulterada do Dawkins o argumento realmente parece fraco. Tudo porque falta o essencial: «o que é maximamente tal, em um gênero, é causa de tudo o que esse gênero compreende». Deus, como vemos, é imutável e portanto não pode ser material. O fedor é uma característica que existe somente no que é material e portanto não pode ser ligado a Deus, assim como o quente. Porém, nos valores transcendentes o máximo grau da perfeição em tal gênero deverá ser atribuído a Deus. Existem pessoas justas e injustas, isso é fato. Um ateu como Dawkins jamais saberá explicar o que é uma pessoa justa e injusta, já que para ele um médico que oferece um serviço de aborto gratuito deve estar acima de São Pio de Pietrelcina, que além de todos os dons místicos, milagres e devoção invejosa, ainda ajundou a fundar um dos maiores hospitais da Itália. O que é uma pessoa justa senão uma pessoa guiada por um norte, por um senso de moral objetiva?

Ora, sendo a moral, o belo e a verdade objetivos, é natural que todos tenham um parâmetro, uma referência, um absoluto e a causa destes. Um artista honesto que faça a sua arte de forma bela, estará necessariamente se direcionando para o que é realmente belo. Somente um tolo vai dizer que um quadro qualquer do Picasso é mais belo que o Retábulo de Ghent. Somente um estulto dirá que uma obra do Niemeyer supera as catedrais góticas medievais. Se existe gradações de belo, de justiça e de moral, existe necessariamente o belo, o justo e o moral máximos, e tudo está direcionado necessariamente a Deus. Deus é a própria beleza, a própria justiça e a própria moral. Quanto mais justa for a pessoa, mais próxima de Deus ela estará. Por isso os santos foram o que foram, por se configurarem a Deus como ninguém consegue, mas obviamente nunca chegaram a ser Deus, e nem querem, mas o imitam por amor a Ele.

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Das provas da existência de Deus: recapitulação das três primeiras vias.

img_5450Terminada as três primeiras demonstrações, escrevo agora essa breve explicação que não apenas servirá como uma forma de recapitulação, mas também como uma forma de responder a objeções de que considerar forçosa a ideia de um primeiro motor, primeira causa eficiente ou um ser necessário é falaciosa ou mesmo inútil ou “perniciosamente enganadora” como nas palavras do Sr. Richard Dawkins, na sua desastrosa obra Deus, um delírio (Companhia das Letras, 2007). O Sr. Dawkins apela para a falaciosa tese do esfarelamento. Se cortarmos pedaços de ouro, em teoria podemos cortar até ao nível do seu átomo. Dividindo o átomo de ouro não mais extrairemos ouro. É interessante esse pensamento, mas o que isso tem a ver com as respostas sobre as três primeiras vias tomistas? Deixemos as palavras com Dawkins:

«O átomo fornece uma terminação natural ao tipo de regressão dos Filés Esfarelosos. Não está de maneira nenhuma claro que Deus seja uma terminação natural para a regressão de Tomás de Aquino» (Deus, um Delírio, c.3).

Como podemos ler, Dawkins apela para o nominalismo occamista, como a maioria dos adeptos da filosofia modernista. Ele usa o ateísmo das lacunas: se Deus é a conclusão, a tese deve ser descartada Eu nem vou (ainda) responder aos outros questionamentos existente nesse livro para não me alongar demais. Dawkins certamente responderia que a teologia é inútil se fosse perguntado a ele porque o seu conhecimento sobre o estudo é tão vago. Todavia, é mister alguém que quer atacar algo conhecendo algo ou ele acha que o ilustre economista Eugen von Böhm-Bawerk não leu O Capital para escrever Kapital und Kapitatzins? De qualquer maneira o conhecimento de filosofia do Sr. Dawkins é no mínimo infantil e sobre a filosofia ele nem poderá dizer que é inútil, uma vez que ao argumentar contra a filosofia, a pessoa já está filosofando, caindo assim num paradoxo performativo. Ora, vamos explicar por que (1) é impossível o retrocesso infinito e (2) o fim das vias é necessariamente Deus.

Usei a objeção de Richard Dawkins porque é a mais conhecida. Kant contribuiu com essa palhaçada intelectual ao dizer que Deus não poderia ser conhecido por essas vias demonstrando que assim nunca leu Aristóteles ou qualquer outro filósofo que prestasse. Bertrand Russell acredita que dizer que houve uma causa primeira porque é falta de imaginação dizer que é impossível um universo sem causa. Como podemos ver, a lista de desonestos intelectuais é grande.

Vamos aos fatos concretos: o que é movido é movido por algo, o efeito precisa de uma causa e o ser que é contingente precisa de um que lhe foi necessário. A impossibilidade da regressão infinita se deve a diversos motivos, mas não me aterei aos já mencionados. O principal motivo é a de que se existe algo infinito, ele não poderá ser composto por partes finitas, i.e., o infinito deve ser extremamente simples. Deus é o único infinito existente na realidade e é extremamente simples porque é puro espírito. Imaginemos um trem infinito. Onde ficaria a locomotiva e o último vagão? Ora, o trem não teria começo e tampouco fim ou nem um e nem outro. Quais os tamanhos dos vagões? Quantos assentos? E se desprender um vagão, qual seria o tamanho das partes soltas? Como vemos, um infinito composto por partes só nos levariam a cálculos irracionais. Vejam que no caso da via do movimento, é inevitável perceber que o universo é composto por movimentos e causas e efeitos. Como para existir movimentos e efeitos é necessário que existam entes movíveis e causados. Como a cadeia destes não poderia ser infinitas como já demonstrado, natural que por fim é necessário que no início exista um motor não movido e uma causa não causada. Tudo porque é necessário que assim seja para não cair na regressão infinita. Dawkins refuta as vias dizendo tais afirmações com o filé esfarelado? Obviamente que não. Ele cai na falácia da regressão infinita quando diz que não devemos imaginar um projetista para as coisas por cair na questão “quem criou o projetista?”. Deus é necessariamente incriado assim como é necessariamente não movido e não causado.

Vamos agora explicar por que o motor não movido, a causa não causada e o ser absolutamente necessário é necessariamente Deus. O primeiro motor não pode ser movido porque cairia numa regressão infinita e sabemos que é impossível isso existir ou acontecer. Quando dizemos que o primeiro motor não pode ser movido é dizer que ele é ato puro sem nenhum estado de potência passiva. A única potência do ato puro é a potência ativa já que não existe possibilidade de ser movido, i.e., a capacidade de colocar em ato todos os outros motores. Não existe nos seres sensíveis nenhum que tenha tais características. Potência ativa nada tem a ver com a potência passiva. Nenhuma força, nenhum campo do qual não se possa ter nenhuma mudança. A única opção que resta é Deus, porque Deus é Aquele que é (Ex 3, 14), i.e., nunca foi e nem será. Deus é imutável. Ora, não tendo nenhuma potência passiva é conclusivo que Deus também não pode ter causa porque sendo Ele se Deus tivesse causa, seria efeito de uma causa mais poderosa do que Ele, mas é impossível que tenha uma causa visto que Deus não pode ser movido. O que não pode ser movido tampouco pode ter causa. Por fim o mesmo ser que não pode ser movido e ter causa também não pode ser contingente. Dizer que Deus é contingente é o mesmo que dizer que Ele foi gerado por outro ser. Ora, um ser que não foi movido e nem causado tampouco foi gerado. Logo, se Deus não é contingente, é o ser necessário que deu a existência a todos os outros seres visto que foi Ele quem moveu todos os outros motores é a causa de todas as causas. Deus portanto é a conclusão de todas as vias.

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3ª prova da existência de Deus: o argumento da contingência

IMG_5523Quando vemos alguém é natural concluirmos que a pessoa tem um pai e uma mãe. Sabemos que uma árvore vem de uma semente. Omne vivum ex vivo, tudo que é vivo vem do que é vivo, a vida só pode vir da vida, é a Lei da Biogênese, atribuída ao gigante Louis Pasteur. Todavia o que não é vivo gera o que também não é vivo, entretanto temos uma conclusão interessante: todos os seres que percebemos deriva de outro do qual esse ser não existiria. Uma árvore vem de uma semente de outra árvore, uma criança vem dos seus pais e até uma rocha precisa de outros seres para existir (sedimentos, magma, etc).

Ou seja, todos os seres contingentes precisam de um ser necessário. Porém, como vimos, seria um absurdo procurar retroceder ao infinito porque chegaremos a conclusão de que tudo o que existe um dia não foi. Portanto, convém que um ser necessário que não seja contingente de nenhum outro tenha existido e dado a condição de ser a todos os outros. Esse ser é Deus. Santo Tomás de Aquino escreveu com os seguintes dizeres:

«A terceira via, procedente do possível e do necessário, é a seguinte — Vemos que certas coisas podem ser e não ser, podendo ser geradas e corrompidas. Ora, impossível é existirem sempre todos os seres de tal natureza, pois o que pode não ser, algum tempo não foi. Se, portanto, todas as coisas podem não ser, algum tempo nenhuma existia. Mas, se tal fosse verdade, ainda agora nada existiria pois, o que não é só pode começar a existir por uma coisa já existente; ora, nenhum ente existindo, é impossível que algum comece a existir, e portanto, nada existiria, o que, evidentemente, é falso. Logo, nem todos os seres são possíveis, mas é forçoso que algum dentre eles seja necessário. Ora, tudo o que é necessário ou tem de fora a causa de sua necessidade ou não a tem. Mas não é possível proceder ao infinito, nos seres necessários, que têm a causa da própria necessidade, como também o não é nas causas eficientes, como já se provou. Por onde, é forçoso admitir um ser por si necessário, não tendo de fora a causa da sua necessidade, antes, sendo a causa da necessidade dos outros; e a tal ser, todos chamam Deus» (S.Th. I, q. 2, a. 3).

O argumento é irrefutável como se percebe. Santo Tomás também o usa na Suma Contra os Gentios:

«Nós vemos coisas no mundo que tanto podem existir como não. Agora, tudo o que existe tem uma causa. Entretanto, nada pode prosseguir ad infinitum em suas causas […]. Portanto, deve-se pressupor algo necessário para sua existência» (S.C.G. 15.124).

E o Pe. Tomás Pègues, O.P. usa justamente esse argumento no seu A Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino em Forma de Catecismo:

«O que existe e pode não existir, depende, em última análise, de alguma coisa que existe necessariamente, e a esta alguma coisa chamamos Deus. Assim é que nada do que existe, exceto Deus, existe por si mesmo, isto é, em virtude de forçosa exigência de sua natureza. Logo, há de, necessariamente, receber de Deus a existência» (Parte I, I).

É forçoso que para algo existir, deve existir Deus, que é o Ser Necessário. Ora, o Ser Necessário é o ser que deve necessariamente existir por si mesmo, mas os contingentes não, uma vez que se eles podem existir ou não, e a fortiori nem sempre existiram e houve um período em que nada existia, tudo porque eles não são necessários. Ora, Deus logo é a explicação mais razoável para qualquer a existência de qualquer outra coisa.

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2ª prova da existência de Deus: primeira causa eficiente

IMG_5456Todos nós sabemos que todo efeito tem causa e seria uma estupidez colossal dizer o contrário. Ainda que David Hume e Bertrand Russell tenham chegado a pensar assim. Não é difícil especular, porém, que caso a casa deles pegasse fogo, certamente iriam querer saber a causa do incêndio. É mister então concluir que todo efeito e tudo o que nós vemos têm uma causa. Assim como ficou provado que tudo que é movido é movido por um motor e que a potência precede o ato, todo efeito tem a sua causa e a causa precede o efeito. Escreveu Santo Tomás:

«A segunda via procede da natureza da causa eficiente. Pois, descobrimos que há certa ordem das causas eficientes nos seres sensíveis; porém, não concebemos, nem é possível que uma coisa seja causa eficiente de si própria, pois seria anterior a si mesma; o que não pode ser. Mas, é impossível, nas causas eficientes, proceder-se até o infinito; pois, em todas as causas eficientes ordenadas, a primeira é causa da média e esta, da última, sejam as médias muitas ou uma só; e como, removida a causa, removido fica o efeito, se nas causas eficientes não houver primeira, não haverá média nem última. Procedendo-se ao infinito, não haverá primeira causa eficiente, nem efeito último, nem causas eficientes médias, o que evidentemente é falso. Logo, é necessário admitir uma causa eficiente primeira, à qual todos dão o nome de Deus» (S.Th. I, q. 2, a.3).

Interessante reparar quando o Doutor Angélico diz: «não concebemos, nem é possível que uma coisa seja causa eficiente de si própria, pois seria anterior a si mesma». Lawrence Krauss, com sua larga desonestidade crê piamente no seu A Universe from Nothing que tudo pode ter vindo do “nada”, i.e., que o universo pode ser a causa de si mesmo. Como um cientista pode cometer uma falha tão grotesca de lógica nos dias de hoje, é um mistério.

Obviamente, uma coisa não pode ser a causa de si mesma. Lawrence Krauss pode ter lá os seus conhecimentos de física, mas de filosofia – assim como o seu colega biólogo Richard Dawkins –é um zero à esquerda. Assim como não existe efeito que é a sua própria causa, porque algo que é um efeito precisa de uma causa distinta de si, o mesmo efeito também não pode ser maior que a causa. Não se pode fazer uma salada com tomate, alface, cebola e palmito se tivermos somente o tomate e a cebola. Como Santo Tomás observou, tudo o que é sensível (perceptível aos nossos sentidos) tem a sua causa. Como o universo é composto daquilo que é sensível, é conclusivo que ele tem uma causa também e que necessariamente essa causa deve ser maior que o universo. Essa causa que não foi causada, que necessariamente é maior que o próprio universo, é Deus.

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1ª prova da existência de Deus: primeiro motor ou a prova do movimento

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Aqui começam as demonstrações para a existência de Deus. Antes de fazer a demonstração Santo Tomás apresenta aqui objeções contra a existência de Deus. Sim, em todos os seus artigos da Aqui começam as demonstrações para a existência de Deus. Antes de fazer a demonstração Santo Tomás apresenta aqui objeções contra a existência de Deus. Sim, em todos os seus artigos da Suma Teológica ele estrutura com objeções, um sed contra, onde apresenta uma resposta breve de uma autoridade e um respondeo, aqui no caso apresentam as suas vias. Depois responde as objeções uma por uma. As objeções no artigo “Se Deus existe” (S.Th. I, q. 2, a. 3) apresenta as seguintes:

  1. Pois, um dos contrários, sendo infinito, destrói o outro totalmente. E como, pelo nome de Deus, se intelige um bem infinito, se existisse Deus, o mal não existiria. O mal, porém, existe no mundo. Logo, Deus não existe.
  2. Demais — O que se pode fazer com menos não se deve fazer com mais. Ora, tudo o que no mundo aparece pode ser feito por outros princípios, suposto que Deus não exista; pois, o natural se reduz ao princípio, que é a natureza; e o proposital, à razão humana ou à vontade. Logo, nenhuma necessidade há de se supor a existência de Deus.

Percebam que são argumentos muito semelhantes ao que vemos nos dias de hoje usados pela esmagadora maioria dos ateus militantes: o primeiro o paradoxo de Epicuro e o segundo, o princípio da economia, que mais tarde se chamará de Navalha de Occam.

No sed contra, Tomás coloca uma citação bíblica (Ex 3, 14) para responder mostra o próprio Deus dizendo que Ele existe: Eu sou aquele sou (Ego sum qui sum). Deus é aquele que é porque nunca foi algo que não era e passou a ser. Ele simplesmente é.

Apresentemos agora a primeira via.

Tudo que é movido é movido por algo. Essa é uma das máximas da filosofia aristotélica (IX Metafísica). O que tem estado de potência só pode ficar em ato se este for movido por algo que já esteja em ato. A potência daquilo que é movido, portanto, precede o ato. Usemos, por exemplo, um exemplo uma parede pintada. Ela antes tinha a potência de ser pintada e ela foi pintada em ato por um motor que já estava estava em ato, que é o pintor e o pintor foi movido pelo seu nascimento e formação.

Tais observações de Aristóteles foi aplicada por Santo Tomás de Aquino para a demonstração da existência de Deus na Suma Teológica. Lá lemos:

A primeira e mais manifesta é a procedente do movimento; pois, é certo e verificado pelos sentidos, que alguns seres são movidos neste mundo. Ora, todo o movido por outro o é. Porque nada é movido senão enquanto potencial, relativamente àquilo a que é movido, e um ser move enquanto em ato. Pois mover não é senão levar alguma coisa da potência ao ato; assim, o cálido atual, como o fogo, torna a madeira, cálido potencial, em cálido atual e dessa maneira, a move e altera. Ora, não é possível uma coisa estar em ato e potência, no mesmo ponto de vista, mas só em pontos de vista diversos; pois, o cálido atual não pode ser simultaneamente cálido potencial, mas, é frio em potência. Logo, é impossível uma coisa ser motora e movida ou mover-se a si própria, no mesmo ponto de vista e do mesmo modo, pois, tudo o que é movido há-de sê-lo por outro. Se, portanto, o motor também se move, é necessário seja movido por outro, e este por outro. Ora, não se pode assim proceder até ao infinito, porque não haveria nenhum primeiro motor e, por conseqüência, outro qualquer; pois, os motores segundos não movem, senão movidos pelo primeiro, como não move o báculo sem ser movido pela mão. Logo, é necessário chegar a um primeiro motor, de nenhum outro movido, ao qual todos dão o nome de Deus.

No Compêndio de Teologia (c. 3), Santo Tomás usa a mesma via.

Acerca da unidade da essência divina, com efeito, o que primeiro deve crer-se é que Deus é, [nota: aqui vemos que o Santo Tomás usa o termo “é” no lugar de “existe, mas na tradução que usei da Suma Teológica preferiram (provavelmente por razões didáticas) o segundo] que é conspícuo pela razão. Vemos, sem dúvida, que todas as coisas que se movem são movidas por outras: as inferiores pelas superiores, como os elementos pelos corpos celestes; entre os elementos, ademais, o que é mais forte move o que é mais débil; e também entre os corpos celestes os superiores agem sobre os inferiores. Mas é impossível que isto proceda ao infinito. Como, com efeito, tudo o que é movido por outro é como um instrumento do primeiro motor, todos os que movem, se não houver primeiro motor, serão instrumentos. Se porém se procede ao infinito nos motores e nos movidos, é necessário que não haja primeiro motor. Logo, todos os infinitos motores e todos os infinitos movidos serão instrumentos. Mas é ridículo até entre os indoutos pôr os instrumentos a mover-se sem um agente principal: isto é semelhante, com efeito, a alguém pôr para a fabricação de uma arca ou de um leito uma serra e um machado sem carpinteiro que os opere. É necessário, portanto, haver um primeiro motor, que seja o supremo de todos; e a este dizemo-lo Deus.

Vejam que ele é claro. Não tem como algo estar em potência e ato ao mesmo tempo sob o mesmo ponto de vista e mesmo modo, e.g., quente e frio ao mesmo tempo e tampouco o movimento pode se repetir no mesmo ente movido porque é impossível o mesmo ente retornar ao mesmo estado de potência. Portanto há de considerar que o universo é uma cadeia de movimentos de entes (motores). Sendo todos os entes movidos finitos, o universo também é finito tanto no tamanho como no tempo porque o infinito não pode ser composto por partes finitas. O tempo nada mais é que a duração do movimento (passagem da potência para ato) e sendo todos os movimentos finitos dada a finitude dos entes movidos, é conclusivo que haja um motor (ente) imovível, que não pode ser movido e colocou todos os entes movidos em ato e como esse primeiro motor não pode ser movido, Ele necessariamente deverá ser ato puro. Tudo isso porque como a potência dos entes movidos precede o ato e o primeiro não pode ser movido. Caso fosse não haveria primeiro motor e consequentemente não existiria movimento presente, uma vez que sem o primeiro motor, os outros não seriam movidos. Logo, deve existir um primeiro motor e é Deus.

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